Cooperativas de créditos financiam mais pequenas e médias empresas, enquanto os bancos públicos sofrem redução

Precisão

As cooperativas de crédito vêm conquistando espaço no financiamento para as pequenas e médias empresas (PMEs). O movimento não é novo, mas ganhou força com a retração dos bancos públicos nos últimos anos. "A atuação [das cooperativas] tem contribuído para a retomada do crédito, especialmente nas carteiras de pequenas e médias empresas", destaca o Banco Central (BC) em seu último Panorama do Sistema Nacional de Crédito Cooperativo (SNCC). Entre 2017 e 2018, os empréstimos a PMEs feitos por cooperativas cresceram R$ 9,7 bilhões. Já os desembolsos do BNDES caíram R$ 1,3 bilhão na mesma base de comparação. Por sua vez, os empréstimos do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal tiveram recuo somado de R$ 17,5 bilhões. No panorama, o BC destaca "o intenso movimento de desalavancagem do crédito direcionado ocorrido nos bancos públicos". Comparações mais longas também mostram a importância do SNCC para as pequenas e médias companhias. Entre 2015 e 2018, o estoque de crédito direcionado a essas empresas saltou de R$ 29,3 bilhões para R$ 44,8 bilhões, alta de 52,9%. "As cooperativas já vêm crescendo há algum tempo", diz Lauro Gonzalez, coordenador do Centro de Estudos de Microfinanças e Inclusão Financeira da Fundação Getulio Vargas (FGV). Ele destaca, porém, que essas instituições têm caráter anticíclico - em momentos de piora da atividade, elas ganham força, por causa da proximidade com os associados. Levando em conta companhias de todos os tamanhos, o acesso ao crédito cooperativo cresceu 18% no ano passado, após expansão de 19% em 2017. Prestadoras de serviços ou empresas jovens (64% tinham até três anos) foram as que mais buscaram acesso ao SNCC desde o fim de 2015. "O acréscimo de empresas cooperadas acentuou-se a partir do segundo semestre de 2016, evidenciando que as cooperativas souberam tirar proveito do ambiente restritivo dos bancos em meio à crise financeira", diz o BC. Outro fator que ajuda a explicar esse movimento é a queda da taxa básica de juros, de acordo com Gonzalez. O recuo da Selic faz com que as companhias consigam abandonar o crédito subsidiado associado aos bancos públicos e busquem recursos em outras fontes. O que vem acontecendo entre PMEs e cooperativas é similar à expansão do mercado de capitais promovida por empresas maiores, diz. Com a Selic em 6% ao ano, o menor patamar da série histórica, e a perspectiva de novos cortes, "essa substituição deve continuar". Até agora, os recursos levantados pelas PMEs com as cooperativas foram usados principalmente como capital de giro - modalidade que teve crescimento de R$ 5,8 bilhões em relação a 2017. "Pequenas empresas são muito dependentes do acesso a crédito", diz João Carlos Natal, consultor de negócios do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). De acordo com ele, as cooperativas não só têm suprido as lacunas dos bancos públicos como também vêm oferecendo linhas de financiamento mais próximas das necessidades das PMEs. "Diferentemente dos bancos, na cooperativa o associado é dono, não cliente", afirma. O BC também chama a atenção para a "vocação para oferecer soluções customizadas" dessas instituições de crédito.

As mudanças têm ainda um componente geográfico importante. "As cooperativas vêm se expandindo sobretudo nas regiões com presença tímida dos bancos tradicionais", diz Gonzalez, da FGV. O BC afirma que, embora a maior parte delas continue no Sul e no Sudeste, "houve melhor distribuição entre as regiões". Para os especialistas, um próximo passo seria a expansão da atuação digital das cooperativas, aproximando o seu funcionamento do funcionamento de uma fintech. "Esse é o grande desafio", diz Gonzalez. "Isso será um grande avanço para as pequenas e médias empresas", diz Natal, do Sebrae.